O egoísmo do autoconhecimento

Um pouco mais de 5 anos atrás eu entrei na onda do autoconhecimento. Talvez devido à minha curiosidade intelectual exagerada, eu contaminava e incomodava todos ao meu redor com o tema. Com perguntas provocativas e discussões que julgava pertinente de forma egoísta, eu dei início a esse processo que está bem longe do fim.

Me lembro perfeitamente de quando entrei em uma discussão com um amigo sobre a busca do autoconhecimento. Meu argumento era que se as pessoas buscassem mais conhecimento, sobretudo conhecimento do seu próprio ser, talvez estaríamos em um lugar diferente, porque ao nos entendermos de forma mais clara, temos muito mais insumos para tomar decisões importantes ao longo da vida.

Seu contra-argumento era que, apesar da ideia parecer um tanto quanto bela, pra não dizer utópica, ainda havia muitas coisas a serem resolvidas e preenchidas, e que eu estava alegando um fim sem dissecar um meio, em outras palavras, sugerindo ações sem antes analisar razões.
Essa discussão cruzou o caminho da psicologia, mais especificamente o caminho de um cara chamado Maslow.

Abraham Maslow foi um psicólogo americano que se fez conhecido por sua Hierarquia de Necessidades. Ele dividiu as necessidades do ser humano em 5 níveis: fisiológicas, segurança, afeto, estima e autorrealização.

piramide de maslow

A teoria de Maslow é que uma pessoa só sente desejo de satisfazer as necessidades do próximo nível se as necessidades dos níveis anteriores estiveram sanadas.

Na minha concepção, autoconhecimento se encaixa nos dois últimos níveis, e quando olhamos para nossos semelhantes, sobretudo em nosso país, seria uma hipocrisia enorme dizer que avançamos pelos níveis como comunidade, como um só corpo.

Partamos do princípio que nós, uma minoria significativa, nos consideramos privilegiados por estarmos se não beirando o topo, no meio da pirâmide em questão. Ao buscarmos conhecimento, ou seja, buscarmos sanar o nível atual e avançar ao invés de garantirmos que todos nossos semelhantes nos alcancem, já temos indícios de egoísmo.

Claro, eu também consigo pensar em pelo menos cinco contra-argumentos, mas quando falo de autoconhecimento não consigo deixar de pensar no Übermensch. O super-homem ou além-do-homem de Nietzsche é a ideia de superação, de alguém que se eleva, a criação de um novo tipo.
Ter auto conhecimento ou ser auto consciente significa ter capacidade de introspecção ao ponto de poder se reconhecer como indivíduo, separadamente do ambiente e de outros indivíduos, e no caso do super-homem de Nietzsche, se isolar em uma montanha por 30 anos parecia o caminho para isso.

Naturalmente eu passo mais tempo sozinho quando navego por essas águas do autoconhecimento, e tomo tudo isso como uma provocação muito pertinente.

Quando eu não estou surfando na onda de uma rotina sufocante, além de me preocupar com como pagar os boletos, me sobra muito tempo pra pensar, e acho que posso discordar desse egoísmo inerente por 2 razões principais:

  1. Preciso aprender e/ou ter para poder compartilhar, e me parece que a solitude contribui para o aprendizado da mesma forma que catalisa a eficiência do compartilhamento posterior ao aprendizado.
  2. Durante qualquer tipo de processo de evolução, de um software à uma comunidade incomplexa, eu acredito que as iterações precisam ser menores e mais constantes. Por isso, aliado à uma certa solitude, a troca de ideias constante me parece fazer mais sentido do que procurar pela casa do Zaratustra no Airbnb.

É óbvio que essas razões dizem respeito ao que eu entendo sobre mim e minha personalidade. Assim como qualquer pessoa, eu busco aprovação e empatia, sobretudo pelas coisas que penso. Eu particularmente nunca vi ninguém gritando por aí que o sol vai nascer amanhã, até porque temos absoluta certeza disso, mas essa necessidade de aprovação acaba acontecendo com mais frequência em temas mais complexos como religiões ou sistemas econômicos. Um amigo que admiro muito escreveu um texto interessantíssimo sobre crenças compartilhadas, vale a pena dar uma olhada.

No final das contas, eu entendo que essa busca por autoconhecimento tem um caráter parcialmente egoísta que deve ser equilibrado. A vida em comunidade é necessária para seguirmos como sociedade e chegarmos mais longe, e entendo que isso não pode ser negligenciado. Seguir rigorosamente o exemplo de um super-homem tendo em conta que o processo de autoconhecimento é abstrato e não tem um fim definido faria com que essa ausência de completude se tornasse em um ciclo infinito de busca e aprendizado, e ao retornar talvez já seria tarde demais.


Processando…
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