Oi, bom dia

Como anda sua saúde? Te perguntam enquanto você assina o termo de admissão do seu novo trabalho. Pressão tá show de bola e você não tem nenhum histórico de doença cardíaca. Está apto para trabalhar. Viu? Tá escrito aí!

Você chega em casa e lê no The Sun que um Apple Watch salvou a vida de um cara com problema no coração. Maravilhas da tecnologia moderna, você pensa, como as pessoas viviam no passado?

O tempo passa, você já subiu uns três cargos nessa mesma empresa e agora lidera um departamento todo.
Você compra esse relógio novo que saiu, e agora, da mesma forma que você acompanhava relatórios financeiros, você também acompanha seu nível glóbulos brancos e vermelhos no cantinho desse dashboard de saúde que você tem no seu celular, computador e televisão. Tá na nuvem!
Que incrível! Nunca mais vou ficar gripado, você reflete, agora só falta inventarem um remédio pra ressaca.

Seu chefe, seu seguro de saúde, seus pais e sua esposa também tem acesso à esse mesmo dashboard, porque afinal de contas eles se preocupam muito com você. Por diferentes motivos, todos eles querem que você esteja com a sua saúde lá em cima.
Você fuma e às vezes bebe um pouco mais do que deveria no happy hour que acontece toda semana religiosamente. Networking é tudo né? Você sabe que precisa parar, mas a vida é uma só, e você não quer viver pra trabalhar e pagar contas.

Sua esposa acha que você não a ama o suficiente, sua mãe acha que você está se matando aos poucos, seu seguro de saúde acha que você está sendo sacana pra receber uma bolada e seu chefe, bom, seu chefe diz que precisa te liberar pra que você explore outras oportunidades. Todos esses argumentos estão fortemente embasados em seus dados vitais.
Maldito esse relógio que foi inventar de salvar uma vida.

O tempo passa, você repara que tem um filtro novo no Instagram e conversa com os amigos sobre como você tem compartilhado sua vida na internet, agora sem trabalho e solteiro, desce a bebida que pisca. Você ainda não sabe direito se essa vai pro feed ou pro stories.
Só to compartilhando minhas experiências pra não esquecer de nada, você rebate. É pra isso que serve, não é?
Hm, você queimaria os álbuns daquela sua viagem pra Europa depois de alguns meses, ou talvez, de 24 horas? Bem, alguns dizes que combina com a efemeridade da vida.

Foi pro stories e pro feed, só pra acabar com essa discussão sem sentido.
Vocês conversam sobre como o seu celular te escuta o tempo todo, e acham que porque falaram sobre as praias de Portugal, agora estão te oferecendo um montão de pacotes de viagem pra praia em toda propaganda que aparece. Que absurdo, estão te ouvindo assim, na cara dura.

Você repensa seu comportamento online. Aquela stalkeada na famosinha do Instagram que lançou uma marca nova de biquíni, suas compras, suas músicas preferidas e seus likes jogam na cara do algoritmo que você tá morrendo de vontade de ir pra praia. Na verdade ele não escutou você falando, mas previu o seu comportamento baseado no que você, com todo o carinho do mundo, entregava de mão beijada.

Nos alimentados da era da informação, da era do entretenimento, e isso está mais em alta do que nunca. Você tenta lembrar a última vez que enfrentou a fila do pão sem puxar o celular.
Essa sua atenção vale muito dinheiro e exerce um papel fundamental em como serão seus próximos anos. Você dá a sua atenção, os gigantes do vale do silício te dão serviços gratuitos e algumas propagandas e as empresas pagam os gigantes para que essas propagandas sejam cada vez mais exatas. Mas tá tudo bem, pelo menos você não precisa esperar mais uma semana pra assistir um novo capítulo daquela série na TV.

O tempo passa, você continua consumindo uma enorme quantidade de dados, comprando online e, obviamente, indo pra praia. Seu relógio, ou qualquer outra coisa parecida, continua detectando todas as deficiências que surgem no seu corpo e as trata quase que instantaneamente.
Você nunca se sentiu melhor e seu perfil nunca foi tão bem definido. Você é literalmente um diferentão, a última bolacha do pacote. Você é estudado, lê a Forbes e tem 37% de chance de ficar gripado em dias de chuva com menos de 21 graus.

Você faz terapia toda quarta às 7h da noite e sai da sessão com sua serotonina 29% acima do normal, coincidentemente de cara pra um outdoor eletrônico que te oferece a casa dos sonhos, que você acha que não viu. O seu nível de serotonina normalmente demora 42 minutos pra voltar ao normal, tempo suficiente pra receber uma notificação aleatória de que uma pessoa bem próxima, que você acompanha religiosamente como uma séria da Netflix, acabou de postar uma foto. Você abre o celular e tem a sensação de que já viu essa casa do anúncio em algum lugar.
Você é vegano e trader de criptomoeda. Ah, mas isso não precisa nem de tecnologia pra todo mundo ficar sabendo né? (Perdão, é recalque).

O tempo passa, ninguém te entende mais, não conseguem te decifrar. A essa altura você acha propagandas um lixo para o seu cérebro e também não confia mais nas recomendações dos seus amigos, porque afinal de contas, ninguém mais pode compreender a complexidade do seu ser.

Então, ao invés disso, você abre o Google e diz:

“Oi, bom dia. Baseado em todos os dados que você possui sobre mim, qual é a marca de leite de soja que eu devo comprar, o lugar que eu devo morar e, antes que eu me esqueça, a mulher que devo escolher pra viver a vida inteira?”

Todo mundo se amarra numa distopia.


Processando…
Sucesso! Você está na lista.

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