É beyond meat que fala?

Vamos lá. Você já acordou tão apressado que saiu mordendo o pão do café da manhã enquanto corria pro metro? Já teve que pular almoço? Pra você, ter que comer todo dia é necessidade ou inconveniência biológica?

Houve uma época na qual eu andava com uma mochila pesada nas costas e precisava pensar muito criteriosamente sobre o que ia comer. Algumas razões principais me forçavam a agir dessa forma. Estar cercado por um deserto sem o buteco da esquina, estar com dinheiro contado pra continuar seguindo ou estar dentro de um ônibus de 24 horas com paradas nem um pouco estratégicas.

Dos tempos de Patagônia e deserto de sal pra cá, já devo ter engordado uns 10kg aos cuidados da dona Elaine, mas não dá pra reclamar né? Uma ou duas refeições bem reforçadas entre caminhadas foram substituídas por banquetes e snacks constantes em frente ao computador.
Com isso, tenho pensado não só na quantidade de comida em si, mas no valor emocional (e nutricional, é claro) que esses alimentos possuem na minha vida.

Entre 2000 e 2006 nós alcançamos um ponto paradoxal. Durante esse período o número de pessoas com sobrepeso no mundo se igualou ao número de pessoas que passam fome. Isso é paradoxal, no meu ponto de vista, porque parece controverso que nenhum dos dois lados podem ser tidos como bem nutridos.

Comecemos com um pouco de conceito histórico generalizado. Lá no comecinho, nossa dieta consistia basicamente em plantas comestíveis e carne de caça. Depois, já há uns 15 mil anos atrás, descobrimos a agricultura e começamos a nos agrupar em comunidades e viver quase que única e exclusivamente de colheitas.
Nos acomodamos. E secas e enchentes nos matavam aos montes.
Entre 1800 e 1900 fertilizantes e técnicas agrícolas mais avançadas nos livraram desse incômodo, além de trazer mais opções aos nossos pratos. Depois da Segunda Guerra Mundial alcançamos o estado de abundância que temos hoje e, graças à isso, você pode chamar o contatinho pra assistir um filme e pedir um combinado japa no iFood sem grandes esforços.

Você sabe dizer o que essas duas fotos tem em comum? Bom, o vulcão fica em Pucón, no Chile, que fica no comecinho da Patagônia. O deserto de sal fica na Bolívia, no Uyuni, que só não ganha de Machu Picchu como destino preferido da moçada do hemisfério norte. Ambos são destinos turísticos incríveis.
O Chile e a Bolívia, os mesmo que me ensinaram a falar cachai, weon e me ofereceram um hotel de sal, passaram por uma mudança radical na forma que que consomem comida.

O governo chileno aumentou o imposto dos refrigerantes e inseriu novos regulamentos de rotulagem para alimentos, e isso afetou diretamente a psicologia da escolha dos consumidores.

Eu estava em um lugar remoto a primeira vez que eu comprei um chocolate por lá, e eu realmente achei que eles recebiam produtos de pior qualidade por conta da localização e por isso os avisos quase do tamanho da marca se faziam necessários. Sabia de nada, inocente. Na mesma época da minha visita eles também haviam banido as sacolas plásticas nos supermercados.

A Bolívia não passa por uma história tão bonita como essa. Com a modinha da quinoa no mundo fitness, o preço e a exportação aumentaram de forma absurda, e agora algumas famílias mais pobres não podem bancar sua própria quinoa.

Isso não quer dizer que todos os crossfits e restaurantes super saudáveis na frente dos parques da Bolívia vão fechar as portas, mas essas famílias vão precisar consumir comida de menor qualidade e passar por uma mudança drástica em suas dietas. Isso sim pode ser um problemão.

Eu costumo explorar diversas opções que se desenrolam diante de mim. Algumas vezes elas são controversas, como ser vegetariano por algumas semanas no país do chorizo ou não consumir álcool mesmo pulando de hostel em hostel. Às vezes esse mundo de opções se torna ser estarrecedor.
De forma análoga, caiu o vale, dia de maldade. Você entra no supermercado e fica difícil decidir, acaba levando tudo que encontra, e mesmo que seu carrinho esteja verde como os pampas argentinos, você sente culpa. Culpa porque vai ficar caro ou porque falta algo que você não consegue identificar.
Barry Schwartz, um psicólogo americano, explica esse sentimento com o conceito do paradoxo da escolha.
Em linhas gerais, esse conceito mostra como, em vez de aumentar nossa capacidade de tomar uma decisão, muitas opções podem levar a sentimentos de ansiedade, solidão e depressão. Já dá pra falar que: não tá fácil?

Partindo desse lugar de abundância, acho que podemos esperar um mercado de comida à base de plantas bem aquecido nos próximos anos. Beyond Meat que fala? Sem mencionar todos os benefícios em reduzir o consumo de carne, eu acho que uma mudança é sempre acompanhada de muito aprendizado, e eu não nego minha curiosidade e ânimo sobre o tema. Afinal de contas, enchemos nossas dispensas e agora está na hora de separar o joio do trigo (trocadilho não intencional).

Um dos meus passatempos favoritos é me reunir com amigos pra cozinhar. Por mais incrível que pareça, isso acontecia com mais frequência em lugares remotos com desconhecidos falando línguas diferentes. Talvez essa era a característica única que nos unia, todos sentiam fome.
Eu vivo nessa eterna jornada de tentar entender o que o meu corpo e minha mente realmente precisam pra uma vida de qualidade. Parece profundo, vou reformular. Talvez, eu só precise de um bom prato de arroz, feijão e mistura com um cadin de conversa.

E enquanto isso, tá liberado ir na Frutaria no Itaim e pedir uma salada de quinoa pra postar no Instagram.


Processando…
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