Mais um sobre o tempo (e o cíumes)

“But how could you live and have no story to tell?”

Fyodor Dostoevsky, White Nights

Nos últimos dias eu parei pra observar para onde eu estava direcionando meus pensamentos, sobretudo os que vos escrevo. No começo me parecia uma boa ideia escrever sobre autoconhecimento e temas ligados ao melhoramento do ser. Arrisco a dizer que talvez até nobre.
Enquanto pesquisava algumas coisas que me interessava, cruzei com essa imagem da série Explained da Vox Media.

Explained by Vox

Existe vida no Planeta Terra por aproximadamente 4 bilhões de anos. 99.99% desse tempo não havia “nós,” os Homo Sapiens.
Esses números me tiraram da minha perspectiva inicial e me levaram pra um lugar um pouco mais escuro, difícil de ser explorado e tomado como base para os argumentos que costumava trazer.

Qual o objetivo de ser tão criterioso, de descer nas entranhas do ser buscando identificar brechas em potencial e possíveis soluções na tentativa de melhorar cada aspecto do meu tempo de vida, esse mesmo tempo que parece insignificante dentro de uma perspectiva histórica?

Carlo Rovelli, um físico teórico italiano, escreveu um livro chamado The Order of Time que explica um pouco a sua perspectiva sobre o que consiste o tempo.
Para ele não há coisas, somente eventos. Ou seja, tudo que você toca, ouve e vê são eventos e o tempo é tido como uma sequência de eventos desordenados, sobrepostos ou não.

Suponhamos que você está beijando uma pessoa pela primeira vez no cinema e para você esse é o único evento que importa. Você poderia até dizer que, além do beijo, havia pessoas se comportando de uma determinada maneira e algumas coisas acontecendo no filme, mas fora isso, nada. O que passa despercebido é que a cadeira, o telão, a porta, o chão e o teto também são eventos, que se constituem essencialmente no relacionamento de partículas que um dia acabarão voltando ao estado de poeira. Esses eventos são, sem dúvidas, mais duradouros e na nossa perspectiva tempo de vida fica um pouco complicado de ver, entender ou até mesmo se importar com isso.

Então eu voltei alguns passos. Eu aceitei a ideia de que nosso período de vida é “insignificante” a ponto de passar despercebido por historiadores, e ao invés de buscar entender questões mais filosóficas e profundas, eu decidi investigar alguns sentimentos irracionais dadas estas circunstâncias. Por sentimentos irracionais, entenda sentimentos aparentemente absurdos que não controlamos muito bem. Eu decidi investir tempo em dois sentimentos específicos que não passam despercebidos dentro da minha personalidade, digamos. Que singelo.

O ciúme. Eu não acredito em uma pessoa que se diz desprovido de ciúmes. Mais do que ser possessivo, o ciúmes indica a nossa preocupação com continuidade dos nossos genes. Do ponto de vista evolutivo, não é nem um pouco bacana correr o risco de gastar tempo, energia e, nos dias de hoje, dinheiro com crianças que não levarão nossos genes adiante.

A ansiedade. Diferente do medo, ela aparece quando não há uma razão aparente. Preciso falar alguma coisa sobre as pessoas que não se dizem ansiosas? Acho que nunca conheci uma.
De qualquer maneira, ansiedade e medo estão relacionados e ambos garantem, ou tentam garantir, nossa sobrevivência. Algumas vezes esse alarme é falso, ou seja, não possui um motivo claro, e esse é o preço que pagamos por ter um sistema que potencialmente nos salvou a vida em diversas circunstâncias.

Entendi que, por mais que pareçam irracionais, esses sentimentos fazem parte de um conjunto de características que justificam esses 0,01% de tempo que perseveramos como espécie.
Agora voltando ao Carlo, ele também afirma que tempo é calor. Podemos comparar passado, presente e futuro através do movimento e da mudança das coisas. Essa mudança é essencialmente calor a nível molecular. Seguindo nessa linha, se ficássemos parados, completamente parados, não haveria passado, presente e futuro e logo o tempo não faria sentido.

Alguns dizem que as emoções, mais do que nos beneficiar ou dar uma pitada de tempero nas nossas vidas, tem um papel importantíssimo beneficiando nossos genes. Talvez seja um pouco injusto que momentos felizes tendem a passar muito mais rápido. Na verdade o aumento de dopamina gera essa impressão em nosso relógio biológico, mas isso é assunto pra outro dia.

Tento encarar tudo isso como um jogo de videogame, no qual cada descoberta me leva a uma nova quest. E as emoções, elas estão aí pra deixar o negócio todo mais interessante, e pra que ninguém o termine antes do esperado e queira pedir devolução. Por mais que de um ponto de vista histórico talvez nada disso faça sentido, eu continuo em movimento, continuo criando eventos e, portanto, histórias. E acontece que eu gosto de contá-las.


Processando…
Sucesso! Você está na lista.

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