A Apple e as Kardashians

Você sabe quanto é um trilhão? Além dos 12 zeros que acompanham o algarismo em questão, você consegue pensar em algo que é quantificado nessa grandeza?

Quando eu estou lidando com números grandes, eu costumo fazer associações. Por exemplo, ao pensar no número 1.000, eu lembro que nosso calendário tem 2019 anos. Ao pensar no número 1.000.000, eu sei que é uma quantia bacana pra ter no banco dado que num fundo seguro deve render algo em torno de R$7.000/mês. Talvez não o mais inteligente, mas seguro. Ao pensar no número 1.000.000.000, eu lembro da lista de bilionários da Forbes e do impacto dos seus projetos, principalmente os filantrópicos. Já um trilhão, o número 1 seguido de 12 zeros, isso ainda não entra minha cabeça, é preciso um certo preparo porque eu não possuo base comparável.

Pensando bem, eu não possuía até 2018, quando a Apple teve seu valor de mercado avaliado em 1 trilhão de dólares. Para colocar em perspectiva, comparemos com o produtos interno bruto de alguns países.

Fonte

O produto interno bruto (PIB) é a soma de todos os bens e serviços finais produzidos em um país ou região durante um determinado período. Parece bonito, mas pra ser bem sincero, economia nunca foi o meu forte, então precisei improvisar. Fui no site da FIAT e fiquei surpreso ao descobrir que um UNO custa R$46.490. Com o dólar à R$4.17, podemos colocar o valor do unão de firma como $11.149. Com 1 trilhão de dólares eu conseguiria comprar 89.694.142 unidades. Cada um deles tem em média 3.8 metros de comprimento e se colocados em fila, essa teria 340.837.739 km de comprimento. A Terra tem 40.075 km de circunferência, fazendo as regras de 3, eu conseguiria dar aproximadamente 8.500 voltas na terra. Haja escada pra por em cima.

Agora com base comparável eu me pergunto, porque uma empresa dessa dimensão, em dólares ou UNOs, abaixou o preço do seu “smartphone acessível” de $749 (iPhone XR) para $699 (iPhone 11)? De acordo com alguns entendidos do assunto, essa medida ousada reflete em mais de 1.3 bilhões de potencial desperdiçado, pra não dizer prejuízo, nos 6 primeiros meses. Andam dizendo que a empresa que batia no peito e dizia “quem tem limite é município” está finalmente cedendo à pressão de mercado, mas como sempre, eu tento olhar as coisas de um outro jeito.

Dia das mães, dos pais, dos namorados, natal, é só escolher. Sabemos que feriados também possuem sua parcela comercial e ajudam na economia. É só caminhar pelo centro de qualquer cidade e ver a quantidade abusiva de cartazes de ofertas durante essas datas.
Para alguns, fazer compras é terapêutico, para outros, necessidade. Para a grande massa é um luxo que acontece apenas algumas vezes ao ano. O último lançamento de um celular, o modelo novo de um carro e esse tipo de coisa nunca vai deixar de ser atrativo, mas são compras que não acontecem todos os dias e dificilmente alcançam uma parcela significativa da população, lembra que estamos falando de trilhões.

Voltando à empresa da maçã, relatórios de venda de iPhones, antes o carro chefe da Apple, vem demonstrando ao longo dos anos que as pessoas de maior poder econômico já estão saturadas com os produtos mais novos e que algo precisaria mudar.
E se mudássemos o foco? Colocamos algo ridiculamente mais acessível em termos financeiros, facilmente escalável e que de quebra deixa a moçada feliz. Feliz?

Eu comecei a escrever esse texto pensando em trazer o Hedonismo para embasar alguns de meus argumentos. O Hedonismo é uma teoria ou doutrina filosófico-moral que diz que o prazer é o bem supremo da vida humana. Mas assim como trilhões está para UNOs, filosofia rasa de engenheiro está para Kardashians. Afinal de contas, por que gostamos tanto de entretenimento?

Nosso cérebro tem uma conexão inerente às histórias, ele é construído para processar histórias. As narrativas nos ajudam a entender o mundo e onde nos encaixamos.
Como aponta o psicólogo o Paul Harris, as capacidades imitativas de nossas mentes nos permitem ocupar quase completamente uma posição ficcional, de modo que nossos pensamentos e sentimentos começam a ser moldados mais pela ficção do que pela nossa situação da vida real. Ou seja, o que acontece na ficção acaba satisfazendo alguns desejos da vida real.

Coincidentemente, a Apple tem investido muito em serviços e os números se mostram bem positivos. Apple Music, Apple News+, Apple Arcade e um destaque especial para o Apple TV+, concorrente direto do Netflix que chega no Brasil com o preço de uma coxinha e uma coca, R$9,90.
Tudo bem, mas também tem que levar em conta a guerra dos streamings né? Com Disney, HBO GO, Amazon Prime, Netflix e outros na jogada, porque eu escolheria Apple?

Consideremos que você decidiu ignorar a bagatela de R$9,99 da assinatura, lembra daquela moçada que só se dá ao luxo de fazer compra algumas vezes por ano? A Apple continua referência em marketing, e essa moçada sempre sonhou em ter o iPhone mais novo. Agora mais acessível, dá pra fazer um esforço aqui e outro ali e comprá-lo em prestações. Quantas dessas pessoas terão a disposição de testar todos os serviços disponíveis ao invés de assinar tudo que Apple entrega, com uma interface de usuário incrivelmente bem desenhada, na cara deles?
E ah, comprando um iPhone, iPad ou Macbook você automaticamente ganha 1 ano de assinatura grátis do Apple TV+. Olha só.

8.5000 voltas ao redor da terra. Daria pra por em dia um montão de séries que eu to atrasado.
E viu, esse iPhone 11 Pro aí, parcela em quantas? Só pra eu ver um negócio aqui.


Processando…
Sucesso! Você está na lista.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s