Silêncio na era do ruído

Não tenho certeza se sou o protagonista dessa história. Talvez o seja, por ego ou consistência.

“Shutting out the world is not about turning your back on your surroundings, but rather the opposite: it is seeing the world a bit more clearly, staying a course and trying to love your life. Silence in itself is rich. It is exclusive and luxurious. A key to unlock new ways of thinking. I don’t regard it as a renunciation or something spiritual, but rather as a practical resource for living a richer life.”

Erling Kagge

No início de 2016 eu comecei a me interessar mais por autoconhecimento e meditação, e isso me levou a ler mais sobre tudo que envolvia tais interesses.
Como uma série de coisas na minha vida, eu passava mais tempo lendo a respeito, do que de fato praticando os ensinamentos obtidos através das leituras. Tudo bem, dizem que a real importância das coisas está na jornada e não no destino final. 

Por volta de março de 2017, uma grande amiga de infância me emprestou um livro chamado Silêncio: Na era do ruído, de Erling Kagge. 
Erling é norueguês, explorador, autor e uma série de outras coisas, e com ajuda da filosofia, ele relata nesse livro a sua experiência ao explorar o Polo Norte, e a forma com que isso havia resignificado o silêncio em sua vida. 
Ele caminhou 1310 km sem qualquer forma de se comunicar com o resto do mundo. Foram 50 dias sem ver uma única pessoa e sem abrir a boca, adicionados ao fato de que a neve absorve o som.
Essa leitura já foi o suficiente para tornar o continente gelado em um destino de viagem para mim. 

Já em outubro de 2018, em uma dessas viagens de fim de semana que costumava fazer sozinho buscando fugir de um ciclo interminável de infelicidades bem pagas, eu conheci um australiano do cabelo grande, bem-apessoado, que falava da América do Sul com propriedade.
Muitas pessoas nos perguntavam onde havíamos nos conhecido, dado que aquela amizade de 3 dias não aparentava tal efemeridade. 

O figura em questão é o Chris, ele havia juntado dinheiro suficiente pra comprar uma casa na Austrália e decidiu que, ao invés disso, viajaria por tempo indeterminado. Designer gráfico de profissão, acabou vindo parar na América do Sul, sem muitos planos e sem passagem de volta.

O Chris foi a primeira pessoa que eu conheci que havia visitado a Antártica, e também a primeira que prometi que não passaria meu aniversário de 27 anos fazendo as mesmas coisas que estava fazendo. Isto é, trabalhando com as mesmas coisas, na mesma empresa, no mesmo país ou frequentando a mesma academia. Viramos amigos pra toda a vida. 
Eu não sou muito fã do acaso, e acredito piamente que as coisas acontecem por alguma razão, mas assumo que cabe a mim mesmo decidir qual é essa razão e agir sobre ela.

No dia 11 de dezembro daquele mesmo ano eu iniciei uma jornada que talvez não previa Antártica como parada, mas possuía o Alasca como destino final. Final? 

Controle de qualidade da dona Elaine

Vou te poupar da ladainha do viajante nostálgico e já vou logo adiantando que (ainda) não pisei no continente gelado, mas essa sucessão de fatos me levou à algo igualmente importante.

O silêncio, contudo, se permaneceu constante na minha mente, como algo a ser entendido e trabalhado. O mesmo fascínio que eu tenho pelo tempo se desdobrou sobre as nuances do entendimento por “ausência de ruído.”

Honestamente, eu não lembro a última vez que passei mais de 5 minutos em silêncio absoluto. Até as minhas meditações são guiadas, e logo, não contam como tal. 
Vejo e almejo fones com cancelamento de ruído, mas assumo que buscar silêncio absoluto não seja meu objetivo principal. 

Todo esse ruído, na verdade, é uma forma de conforto. O sino da igreja badalando no topo da montanha, carros híbridos passando nas ruas de paralelpípedo, pássaros cantando em dó menor com sétima (tá bom, parei). Há uma certa poesia em tudo isso. Se eu decidir me livrar de todo esse ruído, a poesia ainda se mantém? A ausência de um mínimo decibel pode transformar o eu lírico?

Isla Martillo, Ushuaia

O mais próximo que cheguei do continente gelado foi a Isla Martillo, que já me deu uma noção do que devo esperar. E o Alasca se tornou parcialmente impossível quando meu passaporte com visto foi roubado.
Por outro lado, essa sucessão de acontecimentos me trouxe até a Europa, que traz consigo a aurora boreal. Foco, Felipe!

“Tá, mas e o silêncio? Todas essas coisas não teriam acontecido se você estivesse isolado em uma caverna nos Himalaias. “

Bom, assim como qualquer outra coisa, eu acredito que o silêncio deve ser moderado, mas também enfrentado, sobretudo nos momentos mais difíceis. 
Imagine que você está tentando resolver uma integral de frações parciais e seus amigos estão te convidando para uma festa que você não tem nenhum interesse em ir. Muito pessoal? Reformulemos.

Imagine que você esteja tentando responder a mensagem de um amigo que está passando por dificuldades, enquanto o Netflix está ligado e outras pessoas também estão te mandando mensagens. Nessa situação, apesar de cotidiana, um resultado satisfatório beira o impossível. 

Agora, substitua seu amigo pela sua própria vida, e todas as interrupções por coisas que você deu importância durante as 24 horas do dia de hoje. 

Faro del Fin del Mundo

Talvez ir pra Antártica, para os Himalaias ou pra Finlândia não nos torne, automaticamente, mais autoconscientes. Acredito que não seja necessário sair do quarto para se auto-descobrir.

Por outro lado, eu tento tentado descobrir quais séries do Netflix são realmente importantes, isto é, quais ruídos são necessários e em que momentos eles se fazem necessários. Desligar as notificações do meu celular das 10pm às 10am foi só primeiro passo. 

O Chris provavelmente discorda, a Antártica é definitivamente uma parada obrigatória. Afinal de contas, você já viu alguém tão feliz pulando em águas congeladas?

Cheers mate.


Processando…
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