Só sei que nada sei

Passei as duas últimas semanas lendo um livro um tanto quanto controverso chamado “E Se Estivermos Errados?” Do Chuck Klosterman.
Por grande parte o fiz muito desinteressado, pois ao invés de insights grandiosos sobre questões importantíssimas da humanidade, eu consumia deboche sobre astros do rock. 

Pensar que a física quântica só entrou em cena entre o século 19 e 20 não torna os físicos clássicos menos inteligentes, e por esse motivo vos escrevo este texto. 

Talvez por ego ou medo de ser passado pra trás, eu me considero inteligente. Razoavelmente acima da média, eu diria, completamente desprovido de fatos para embasar minha abstrata percepção.
Eu até já escrevi um artigo de 18 páginas sobre o cálculo da fotocorrente em estruturas semicondutoras do tipo QWIP – fotodetectores de infravermelho de poços quânticos, e mesmo depois de 6 anos, ainda me custa entendê-lo por completo. Obrigado pela força, Maialle. 

Eu gostaria de propor um exercício. Comparemos o Brasil de agora, um país de terceiro mundo, com a Inglaterra na era Vitoriana. Após fazê-lo, repita o processo, mas dessa vez o compare com a Roma Antiga. 
Ganhamos de lavada quando o assunto é saneamento básico, saúde pública, acesso à alimentos e informação.

A tão sagrada informação. De Wikipedia à fake news sobre a morte de famosos, podemos dizer que nos dias de hoje fazemos uso de um segundo cérebro, e isso por si só já torna a comparação injusta. 

Agora, suponhamos que um desastre natural venha a acontecer e esses mesmos três lugares precisem recomeçar do zero. E não se esqueça de que esse desastre levou consigo toda a nossa infraestrutura de comunicação. Quem levaria a melhor?

Somos infinitamente superiores em conhecimento do que nossos antepassados, mas isso é diretamente proporcional à forma com que nos distanciamos da necessidade de compreender coisas básicas. 
Quantas pessoas do seu círculo de amizades seria capaz de construir um abrigo – mesmo que simples, iniciar uma permacultura e caçar animais com o simples objetivo de sobreviver?

Pegando emprestado o experimento sobre zipper do Yuval, muitas pessoas acreditam saber como este funciona, mas ao pedir que citem os passos de produção e funcionamento do mesmo, a verdade se revela. 

Essa é a ilusão do conhecimento que temos hoje. Nós acreditamos que sabemos muito, quando na verdade sabemos apenas um pouco, porque estamos utilizando o conhecimento de outras pessoas como o nosso. Lembra do segundo cérebro? 

Vejo um padrão similar ao avaliar redes sociais. Muitas pessoas – incluindo eu – criticam redes sociais com o peito cheio, argumentando que estas não passam de um rio de baboseiras sem sentido que faz uso de fraquezas humanas para ter a maior quantidade de acessos, pelo maior tempo possível. 
No passado era a Globo, agora é o Facebook e o Instagram.

E o que fazemos para lidar com isso? Digo nós, os críticos.
Além de hipocritamente continuar usando-as, seguimos pessoas e páginas aparentemente mais providas de inteligência, de conteúdo relevante. Ao fazê-lo, passamos a consumir um zilhão de teorias, pensamentos e conceitos por dia com a falsa sensação de estar adquirindo conhecimento mais importante.

Esse mês eu li dois livros, um pouco mais de 25 artigos e estou no meio do segundo audiolivro. Me considero um consumidor de informação profissional, mas afirmo que pouco fiz com todas essas informações. O que me diferente das pessoas que passam o dia vendo memes de cachorros no Facebook? Em termos práticos, absolutamente nada.

Essa ideia veio acompanhada de um certo desespero, então comecei a colocar todo esse conhecimento em prática. Comecei buscando criar relacionamentos com situações do dia a dia, assim os trazendo para uma perspectiva mais mundana, por assim dizer.
Escrevo, reviso, releio e compartilho com um grupo de pessoas que consome e contribui para que esse processo continue, na próxima semana. 

Posso dizer, com absoluta certeza, que nunca aprendi tanto como o tenho feito através desses textos. 

Fiz uso do paradoxo socrático no título para conduzi-los a uma avaliação um pouco mais pé no chão sobre o conhecimento.

Há um conceito interessante abordado por Noel Burch sobre os 4 estágios da competência, que diz respeito ao processo de irmos de total incompetência à detentores de uma habilidade.
Esses estágios são: 

1. Incompetência inconsciente
A pessoa não sabe o que não sabe e não reconhece a carência de tal conhecimento. 

2. Incompetência consciente
A pessoa reconhece a falta do conhecimento e vê algum valor em adquiri-lo.

3. Competência consciente
A pessoa possui competência para fazer algo, mas isso ainda requer muita atenção e dedicação.

4. Competência inconsciente
A pessoa realizou algo tantas vezes que se tornou da sua natureza fazê-lo bem, com maestria. A habilidade foi conquistada.

Achei o conceito interessante e pertinente, sobretudo ao tentar abordar as coisas que gostaria de conquistar em 2020. 

Todo final/início de ano eu me vejo criando uma lista de coisas que gostaria de aprender e dominar. 
Ao longo dos anos eu notei que essas coisas estão se tornando mais atingíveis, e que minha abordagem tem melhorado com o tempo.
Eu até posso dizer que me tornei mais consistente, mas ainda não creio ter passado do terceiro estágio em nenhuma das coisas que me propus a dominar. 

A lista normalmente passa de 10 itens e torna todo o ciclo insustentável. É difícil aceitar que assistir 20 vídeos sobre fotografia não me torna automaticamente em um fotógrafo, quando tenho esse conteúdo no meu bolso em qualquer lugar do mundo.
Criar essa lista talvez seja mais importante que alcançá-la durante o ano. 

Pra ser muito honesto, acho que as únicas coisas que me mantive consistente por mais de meses foi viajar e escrever esses textos, e talvez isso diga algo a meu respeito. 

E ainda pegando carona com Sócrates ao dizer que “A vida não examinada não vale a pena ser vivida pelo homem,” eu busco quebrar esse padrão com um experimento. 

Revisitei meu caderno de objetivos para 2020 e, com uma certa dor no coração, os reduzi à 3 itens.
Por um lado, é difícil pensar que isso é algo interessante a se fazer quando buscamos viver de forma mais intencional. Por outro, o terceiro nível não tem me deixado completamente satisfeito. 

Eu normalmente não tenho problemas ao conversar sobre qualquer assunto, de Kardashians ao princípio da incerteza de Heisenberg, mas vou carecer de informações para sustentar essa conversa por mais de dois minutos. 
Por isso, somente três itens.

Três itens que, ao longo de 2020, pretendo alcançar o último estágio. Esses itens são: fotografia, videografia e a língua alemã. 

Você provavelmente está esperando uma conclusão, na qual eu apresento a forma com que resolvi o problema que trouxe nesta leitura.
Acontece que eu ainda não a tenho inteiramente formulada. 

Espero trazer uma continuação satisfatória para esse texto ainda este ano, e conto com os 37 dias que ainda tenho para fazê-lo.

Aceito sugestões (é sério, me respondam que é grátis!)


Processando…
Sucesso! Você está na lista.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s