Intenção digital

Recentemente eu encontrei um autor brasileiro com o qual me identifiquei muito, e comecei a me perguntar o que me difere dele quando o assunto é a escrita. 
Ele obviamente tem mais tempo de casa e provavelmente dedica mais tempo à escrita do que eu, mas uma coisa que me chamou a atenção é a forma com que ele conecta seus pensamentos. Seus livros aparentemente buscam serem atemporais, enquanto o que eu escrevo está bem arraigado neste momento, mais especificamente nos últimos 5 anos. 

Livros normalmente são escritos para serem compreendidos pelos próximos séculos, ou até mesmo decifrados em um momento diferente do agora. Alguns escritores não parecem fazer sentido mesmo depois de anos, até que em algum momento viram uma categoria literária
Por outro lado, textos como esse são escritos para durar um mês, uma semana ou até mesmo somente o dia de hoje.

Esse conceito de conteúdo efêmero parece ter funcionado muito bem para fotos e vídeos, sobretudo de coisas também efêmeras. É interessante – quiçá relevante – ver que meus amigos estão assistindo O Irlandês essa semana, ou que comeram em um novo restaurante que abriu recentemente, mas isso provavelmente não terá o mesmo impacto dentro de algumas semanas.

Ainda me custa entender onde o que crio se encaixa. O vejo como um conteúdo um pouco mais curado, que requer um pouco mais de tempo e atenção pra ser consumido, e talvez até certa consistência para que faça algum sentido.

Em contrapartida, não posso compará-lo a um livro, no mais amplo sentido da palavra. Ao que me parece, livros detém de uma linha de raciocínio mais complexa. Os de ficção normalmente descrevem cada cena antes de entrar em uma trama, e os de não-ficção nos trazem métodos e teorias importantes provenientes minimamente das experiências dos autores e amplamente de outras pesquisas e estudiosos relevantes.

Nós somos bombardeados por novas mensagens, novas fotos, novos textos, novos vídeos e outros tipos de conteúdo todos os dias, e o tempo para consumi-los mais intencionalmente é escasso. Muitas vezes sinto que consumo alguns conteúdos da mesma forma que vou ao mercado, como uma tarefa a ser riscada de uma lista de afazeres. 

Parece que o exagero de informações traz consigo o descaso, a falta intenção. Note, só por alguns minutos, a velocidade com que você rola o feed pra baixo.
Você pode até argumentar que cérebro humano consegue processar uma imagem em 13 milissegundos, mas eu te pergunto, a que custo?

Eu notei que quanto mais coisas eu tenho pra fazer, mais rápido e não intencional eu acabo me tornando. Isso não seria um problema se não acabasse, de tabela, afetando minhas relações pessoais. Dias (ou semanas) pra responder uma mensagem, falar ao telefone enquanto vejo emails, responder mensagens enquanto escuto audiolivros ou podcasts. A lista só continua. 

Quando paro pra refletir, para olhar em retrospecto, vejo que algumas coisas precisam mudar.

Se voltássemos alguns milhares de anos – aproximadamente 13 e um pouco antes do desenvolvimento da agricultura – nos encontraríamos com alguns grupos de caçadores-coletores andando por aí. Independente da sua habilidade social, você provavelmente não se tornaria um grande amigo de um deles. No máximo, a retórica seria um “vou ver e te falo.”

Essa moçada limitava o número de relações profundas e com um alicerce estável em mais ou menos 150 indivíduos. Imagino que se o Tio Zuck tivesse inventado o Facebook nessa época, provavelmente ainda estaria morando no seu quarto de universidade. Veja aí a importância do timing. 

Eu hei de concordar que, de fato, é humanamente impossível ter 150 amizades de tal caráter e, além disso, ter tempo para fazer jus a essas amizades. 
Acontece que o tempo, algumas histórias, fofocas e crenças compartilhadas foram surgindo e esse número acabou aumentando significamente.

Hoje em dia eu consigo estar por dentro da vida de 150 pessoas tranquilamente. 
“Mas é um conhecimento raso.” Pode até ser, mas se eu sei as melhores coisas que essa pessoa tem passado e o que ela comeu ontem no jantar, não acho que sobra muito espaço pra segredos relevantes.

Bom, como já disse no início, eu venho tentando ser mais intencional e, para experienciar isso na prática, eu fiz um experimento.

Eu vim pra Nápoles esse final de semana e decidi reduzir minha presença nas redes sociais – que já não é lá aquelas coisas – pra zero. Com exceção de um grupo pequeno de pessoas que tem ciência do meu paradeiro, para a grande maioria dos meus seguidores (que termo horrível) eu estou vivendo mais um dia normal, sem nenhuma novidade coberta de aventura digna de ser compartilhado.

Devo dizer que a sensação foi, no mínimo, estranha – uma mistura de liberdade coberta de ansiedade.
Em alguns momentos eu me pegava pensando em qual vídeo ficaria melhor no stories e vendo que muita das fotos eram dignas de algumas curtidas. Em outros, me sentia um pouco mais atento com o celular no bolso, como se começasse a perceber outras coisas mais intencionalmente, como os cheiros e alguns sons mundanos, que por não serem dignos de compartilhamento, passavam despercebidos outrora. 

Também senti uma certa vertente da solidão ao não compartilhar e trazer pessoas queridas pra perto dessa experiência. Para lidar com isso, conversava com alguns amigos que faziam parte desse pequeno grupo e o sentimento se dissolvia lentamente, sem a necessidade da tensão inerente à exposição pública (pra mim). 

Espero que esteja claro que não tenho como objetivo criticar as redes sociais, muito pelo contrário, estou criticando a forma com que eu vinha lidando com elas. As pessoas costumam culpar coisas e outras pessoas, mas na maioria das vezes somos nós os responsáveis por como nos sentimos.
Se você já leu qualquer livro por aí sobre saúde mental, você provavelmente já ouviu a frase “você não pode mudar as coisas que acontecem, mas pode alterar a forma com que você reage à elas.”

Da mesma forma que reduzi os objetivos que gostaria de alcançar em 2020 pra três, iniciei uma espécie de reciclagem digital. Deixei de seguir muitas pessoas, parei de ler todos os artigos que tinham um título interessante, limitei o Youtube e quanto tempo passo no celular. 

O tempo começou a sobrar e eu até me vi entediado um dia desses.

Eu queria encerrar te encorajando fortemente a fazer o mesmo. Se essa lista de emails não te agrega em nada, ou pelo contrário, te causa algum sentimento negativo, eu sugiro fortemente que você se desinscreva (link no fim da página). Repita o processo para todas as outras coisas de mesma natureza que você vem consumindo. Aproveite que é fim de ano, um período de renovação, de novas escolhas e novos objetivos (trilha sonora opcional).

Caso contrário, eu peço que você tire 2 minutos pra me responder sobre como eu agreguei em sua vida com o que venho criando.

Essa semana eu alcanço a marca de 25 semanas consecutivas desde que comecei este projeto, a metade da quantidade que havia estabelecido no início.
Eu preciso tomar algumas decisões de como seguir a partir daqui, então adoraria ouvir críticas e sugestões pra ver se faz sentido continuar ou pivotar minhas intenções.

Tudo que crio é fortemente influenciado pelas minhas experiências, então decidi criar um álbum compartilhado (para ir anexo ao texto) com algumas das memórias que registrei na cidade que, segundo os nativos, trouxe a pizza ao mundo. Um grande obrigado, Nápoles.

Se você tem qualquer outra coisa mais importante pra fazer, recomendo deixar isso de lado e seguir com a sua vida.

Espero que você tenha uma ótima semana. 


Processando…
Sucesso! Você está na lista.

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