Um ensaio sobre a ansiedade

Hoje é dia de festa – meu aniversário – e todos estamos em casa. O alicerce da festa é a sala de estar, que se mistura com a sala de jantar e o jardim de inverno. É inverno. Eu tento me lembrar o porquê das cortinas tons pastéis ao notar que a mesa de café de mogno não combina muito com o sofá vintage em sua tentativa de dividir os dois cômodos. Os quadros, em seus esforços minimalistas, e a costela de adão no canto esquerdo da sala trazem um certo equilíbrio minimamente satisfatório. 

Já a cozinha está impecável. É aqui, nesta fortaleza, que converso com as pessoas mais próximas de mim. Me sinto seguro física e emocionalmente, pois a porta corrediça de vidro temperado se encontra devidamente fechada. Seguindo o propósito pelo qual foi instalada, ela mantém o que acontece na cozinha dentro da cozinha. 

Eu estou colocando uma bebida gaseificada dentro de um copo e, apesar de estar fazendo com as melhores das intenções, a espuma continua subindo mesmo depois de eu ter interrompido a ação. Acompanhado de um gelo na barriga imediato, várias possíveis ações começam a emergir na minha mente para evitar um derramamento na toalha de cetim – presente da minha avó – que seria apenas uma porta de entrada aberta para o mármore recém instalado, porém ainda não impermeabilizado. Eu tenho 3 segundos para lidar com a situação.

Há diversas coisas no universo conhecido que são capazes de dobrar o espaço-tempo. De campos gravitacionais à crises de ansiedade (ou pânico), o tempo perceptível é, digamos, relativo.

As pessoas fora da cozinha podem me ver perfeitamente, afinal, a escolha do vidro sobre o metal rústico foi minha. Por sorte, eu não preciso dizer o mesmo sobre a porta emocional que, também escolhida e construída minuciosamente ao longo dos anos, me protege do mundo exterior com feições ensaiadas.

Meus companheiros de cômodo reafirmam a categoria de pessoas próximas, não necessariamente no que diz respeito à distância física, mas sim que compreendem meu íntimo. Eles notam uma mudança breve ao passo que deixo de regozijar-me com o assunto da vez.

A conversa continua. Uma dessas pessoas abre a geladeira de inox de duas portas que comprei recentemente e questiona se essa é a única cerveja que tenho, outras duas riem um pouco alto demais (será que não percebem?) e a quarta apenas me observa. 

Eu costumo encarar (e aceitar) a ansiedade como uma reação primal do meu cérebro, uma tentativa natural de me proteger do perigo. Se voltarmos alguns milhares de anos, antes mesmo de termos adquirido nossa capacidade de cognição, nós já sofríamos de ansiedade. Essa ansiedade, contudo, não era causada por relacionamentos, expectativas, trabalhos e por feeds cuidadosamente programados, mas por ameaças reais. 

Um antepassado distante, antes mesmo de ter sua cidadania italiana reconhecida, decidiu fugir de uma ameaça para garantir sobrevivência e, graças a essa ação-resposta automática adquirida ao longo de milhares de anos de evolução, eu estou aqui. 

Um brinde acontece lá na sala. As pessoas não fazem ideia do que se passa na cozinha. Parecem os 3 segundos mais importantes – e agonizantes –  da minha vida. Será que eles pensam em voltar para suas próprias cozinhas? Sinto a presciência do pior.

Um segundo se passa. A espuma continua subindo e eu já tenho pelo menos três ações rápidas esboçadas na minha cabeça para evitar o desastre. A bebida é vermelha escarlate, e eu não esqueço nem por um segundo sequer que por baixo da toalha há um mármore que ainda precisa ser impermeabilizado. A cozinha é nova, o sentimento antigo. Meu fascínio constante é devastado pela perfídia do cérebro humano.

Eu estava na terceira série a primeira vez que entendi os sintomas da ansiedade. Lembro de me sentir preso, e por mais que eu gostasse de estudar (isso continua), o fato de ser obrigado a ficar dentro de uma sala de aula por horas era aterrorizante. 

Uma risada mais alta, uma palavra mal intencionada, o sinal para o intervalo, praticamente tudo virava gatilho para que o sentimento aumentasse em proporções catastróficas. 

Me perguntam se eu tenho um abridor de vinho, pois acabam de encontrar no fundo da geladeira um vinho do porto que comprei na última viagem à Portugal. Porto, aquele dia, aquela festa, aquelas pessoas, gatilhos, o pânico. “Está na terceira gaveta.”

Já com o abridor em mãos, a gaveta é fechada com força. O trilho é novo, o barulho ensurdecedor. Me esforçando pra não ser notado, fecho o olho com força buscando fugir de qualquer simulacro. 

Um gatilho é literalmente qualquer coisa que ocasiona o aparecimento de sintomas de ansiedade. Um dia cinza, uma fechada no trânsito, um barulho inesperado, um pensamento, uma pessoa, um objeto, a lista só continua. A ação subsequente normalmente é tentar racionalizar o sentimento, traduzi-lo em medo de uma ameaça justificável, em possíveis situações futuras ruins ou coisas do tipo.

Dois segundos se passam. A respiração fica ainda mais difícil, o peito aperta. Nesta altura, já construí pelo menos 10 cenários para evitar o desastre. Em caso de falha, mais 10 para mitigar o estrago. 

Os espectadores, mesmo que do lado de cá do vidro, não percebem o tamanho da agonia ali presente. Para mim, a bebida continua subindo ferozmente e já passou da última linha determinada pelo fabricante. Para eles, ela ainda se encontra dentro do volume do copo. Um desvario, penso.

Uma ameaça, um gatilho, faz com que minha amígdala libere adrenalina no meu corpo e promova um surto de vigilância, no qual todos meus outros sentidos são anulados. Fome, digestão, libido, sede. Nada, meu corpo está preparado para sobreviver a qualquer custo. Meu córtex pré-frontal, responsável pela lógica (essa que gosto tanto), briga sem cessar contra esse ciclo numa tentativa de manter um equilíbrio saudável. 

Todas as pequenas alegrias do dias se afunilam numa única voz que insiste: sobreviva. O cérebro humano sem dúvida é incrível e não é a toa que estamos no topo da cadeia alimentar. 

Uma pessoa conhecida entra na cozinha e me chama. Minha agonia desaparece por uma fração de segundo e eu sou levado pela conversa. Recupero algumas virtudes, uma faísca de fascínio reacende dentro de mim. Era de se esperar, falamos sobre tecnologia. 

A conversa não é longa, talvez caiba em 140 caracteres. É tão eterna quanto o tempo que se leva para trocar uma garrafa de cerveja vazia por uma cheia. A sensação de fascínio é, de novo, substituída pelo pânico. Meu copo! O fascínio de outrora já é incognoscível.

Ainda na terceira série e mesmo com as capacidades mentais limitadas pela agonia de um sentimento tão intenso e tão novo, eu acabei inventando algo que no futuro eu viria a entender como uma mistura enviesada de estoicismo e mudita.

Um dos pilares do estoicismo diz que não devemos nos preocupar com as coisas que não podemos controlar. Os gatilhos normalmente envolvem uma série de parâmetros, e logo não podem (nem devem) ser controlados. 

Mudita é uma palavra em sânscrito que pode ser entendida como o prazer que vem de se deliciar com o bem-estar de outras pessoas.

Essa combinação inusitada me fez descobrir que realizar pequenas boas ações contrariava os gatilhos, e consequentemente os sintomas, e eu passei a fazê-lo com uma certa frequência (e desespero). Eu compartilhava meu lanche, presenteava minhas melhores canetas e até fazia a lição de outras pessoas. Eu não me importava com os meios, o resultado era satisfatório.

Três segundos se passaram e por mais que eu tenha pensado e mapeado diversas formas de contenção, meu corpo já não responde mais adequadamente. São tantos resultados possíveis, tão pouco tempo. 

Agora a tensão superficial é a única coisa que mantém o líquido dentro do copo. A altura do líquido já é mais alta que a beirada do vidro. A visão fica borrada, o coração acelerado e a mão gelada. Sinto frio, vontade de ir no banheiro (pela décima vez) ou de sair correndo, mas pra onde?

O termo “psicólogo” me foi alcunhado aos 9 anos quando conheci um pela primeira vez. O motivo, transtornos de ansiedade. Antes de pensar em me sentir especial, mesmo dado o caráter negativo do termo, descobri que só no Brasil somos ˜19 milhões de pessoas com a mesma condição (segundo a OMS). 

Frescura, loucura, já ouvi de tudo. O fato é que por mais que tentamos ser mais espertos que o nosso cérebro, são milhares de anos de deliberação e cognição contra milhões de anos de evolução, leia-se sobrevivência. 

O copo (e o corpo) transborda.

As pessoas que estão na sala notam algo, mas nada fora do normal. Um filtro aqui e outro ali e a situação ainda é digna de Instagram

Durante os próximos segundos, é difícil fazer sentido do que está acontecendo. As pessoas mais próximas tem seus sapatos e suas roupas manchadas pelos respingos da bebida vermelha. Um sapato branco novíssimo parece agora ter pisado em uma poça de sangue. 
Um terno cinza agora possui pequenos coágulos vermelhos provenientes de um big bang emocional. O tempo congela.

Conforme eu ia crescendo, parte dessas pequenas boas ações se transformava em episódios críticos de frustração prolongada que poucas pessoas tinham o desprazer de experienciar (ainda bem). Eu ainda não entendo onde ou porque houve esse ponto de inversão, mas acredito que quebrar esse padrão se faz mais necessário do que nunca. 

Elas tentam se limpar e fazem pouco caso do ocorrido. “Essas coisas acontecem.” Algumas delas terão sucesso, outras precisarão conviver com essas manchas pra sempre. 

Como uma piada, o acontecido é agora uma lembrança, que por sua vez vira um gatilho. Assim como um moinho movido a água, o ciclo continua ad infinitum. O moinho é visível e palpável, parece até digno de alguns ajustes. Contudo, encontrar a nascente de água que provoca esse movimento constante parece um pouco mais problemático. 

A loucura que me disseram lá atrás, segundo o maior físico que já existiu, é continuar fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes. 

A festa termina e os convidados vão embora. O silêncio é arrebatador e traz consigo a segurança da minha própria companhia. Um grito de desespero se mistura com a tranquilidade de um lugar seguro. Um paradoxo, ou o cérebro humano per se. 

“Eu só tenho essas crises algumas vezes por ano” é o novo “eu só bebo de final de semana”. Abri mão da minha saúde mental para viver uma vida um pouco diferente. Vida essa que, romantizada ou não, me trouxe até aqui. Estou ansioso pelos próximos capítulos e por quebrar padrões de longa data, mas dessa cozinha não devo sair tão cedo. 

Hoje é dia de festa. De novo. 


Processando…
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