A mente de iniciante

Se você já acompanha esse blog há um tempo, você provavelmente deve ter lido um texto no qual eu falava sobre uma carta que havia escrito para ler depois de 3 anos. Hoje eu recebi uma notificação do aplicativo que uso para guardar essas cartas e notei que há exatamente 4 anos eu decidi, pela primeira vez, que era hora de mudar alguma coisa na minha vida. Ah, enquanto bêbado de conhaque grego, presente do tio de uma ex namorada que me fez beber uma garrafa inteira (literalmente) para ser aprovado na família, que era russa. Em retrospecto, vejo que não funcionou. História para outro texto.

Desde então, muita coisa aconteceu e eu perdi muitos – se não todos – os hábitos que eu tinha naquela época. Beber para escrever era um deles, talvez muito Bukowski para uma época um pouco confusa.

Hoje em dia, mais experiente e maduro (totalmente debatível), eu tenho pensado em como utilizar todas essas experiências, todos esses aprendizados para traçar um futuro mais alinhado com a minha personalidade e os meus objetivos. Em outras palavras, como viver de forma mais leve e com um norte mais claro.

Um termo um tanto quanto interessante apareceu durante uma das minhas sessões de meditação: a mente do iniciante. Como sempre, busquei ir mais a fundo e descobri que a palavra correta é Shoshin, originada do Zen Budismo. Em sua essência, ela refere-se a ter uma atitude mais aberta e desprovida de preconceitos ao estudar um assunto, mesmo ao estudá-lo em um nível avançado, exatamente como faria um iniciante. E então eu me pergunto, como encontrar um equilíbrio saudável entre utilizar todas as minhas experiências, altamente providas de cargas emocionais, e encarar as coisas como um iniciante?

Preciso reforçar que equilíbrio não é uma das minhas palavras favoritas. Costumo ser intenso, para o bem e para o mal, e talvez essa ideia tem sido a mais difícil de perseguir nos últimos tempos.

Semana passada um dos meus alunos me deu uma aula sobre BBB e Avenida Brasil. Como é de se esperar, minha primeira reação foi de que ele estava perdendo tempo com entretenimento burro e que com certeza ele poderia estar gastando seu tempo de uma forma mais sábia.

Meu argumento foi por água abaixo quando ele me explicou que isso era, antes de qualquer coisa, uma experiência antropológica na qual ele entendia melhor a vida no Brasil, estudava mais a personalidade do brasileiro e de quebra aprendia o português que realmente falamos no dia a dia. Depois disso acrescentou que prefere ir no supermercado à ir a um museu quando está em novo país, e que assim aprende muito mais sobre o ambiente que está inserido. Esse australiano que mora no Rio de Janeiro viaja mais e há mais tempo que eu, logo suas palavras terão um certo peso na forma com que devo seguir meus próximos passos.

Agora, como faço para encarar isso com uma mente de iniciante? É o panem et circenses que eu defendia tanto completamente ressignificado. Por agora, deixarei a presunção de lado.

Isso naturalmente se estende para diversos pilares da vida. Como encarar um amigo que te fez mal no passado, um trabalho tóxico, uma doença ou um pôr do sol de uma forma totalmente nova, sem todas as cargas emocionais que acumulamos durante a vida?

Eu notei que beleza, assim como o tempo, tem um papel importantíssimo nesse processo. As crianças, por exemplo, vêem tudo com fascínio, pois o mundo é realmente belo e elas estão o experimentando pela primeira vez. Cada animal, praia, prédio, pessoa é uma beleza eminente digna de uma encarada prolongada.

O mais próximo que cheguei dessa sensação de fascínio prolongado nos últimos anos foi quando visitei a Patagônia.

Talvez eu tenha me sentido da mesma forma nos meus primeiros dias na montanhas da Calábria, mas o fascínio logo se dissolve ao passo que as coisas se tornam cotidianas.

Ainda me pergunto, como encarar a vida e suas consequentes ramificações com a mente de um iniciante? Talvez a resposta não seja encarar, de fato, tudo como se fosse a primeira vez, mas buscar experiências novas constantemente de forma que esse fascínio de criança que temos dentro de nós não se dê por vencido.

Eu acredito ter feito isso nos últimos anos. Visitei lugares que nunca pensei que visitaria, conheci pessoas incríveis e experimentei sabores exóticos. Seguindo dessa forma, uma hora ou outra esse fascínio se tornará meu modus operandi para lidar ou absorver qualquer coisa que a vida me oferecer, e esse será um dia bom.


Um filósofo jamais se acostuma com o mundo. Para ele, ou para ela, o mundo continua a ser surpreendente — sim, um lugar repleto de enigmas e mistérios. Filósofos e crianças têm esse ponto em comum. Você pode muito bem dizer que nesse aspecto um filósofo se comporta como uma criança durante toda a sua vida.

O Mundo de Sofia

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