Analógico e assíncrono

Os computadores sempre chamaram a minha atenção. Mesmo numa época onde os algoritmos só serviam para ditar o comportamento dos robôs que eu tentava matar com armas de 16 bits, essas máquinas tinham algo de especial a oferecer, e eu queria ser o primeiro a provar.

Imagino que assim como muitas pessoas que me leem, eu também não nasci grudado em um tablet. Na realidade, eu só fui ter um computador pessoal (PC) no fim do ensino fundamental. Na época, os computadores não eram muito acessíveis e os videogames já tomavam boa parte do meu tempo. Mesmo com a minha aquisição tardia, eu já tinha um bom conhecimento sobre sistemas operacionais e softwares, dado que vivia na casa de amigos aprendendo mais sobre aquela máquina de possibilidades.

A minha primeira experiência com algoritmos foi mais ou menos na mesma época. Talvez não algoritmos propriamente ditos, mas o IRC me permitia usar linhas de comando e me deixava perplexo pela sua simplicidade e eficiência, mesmo dado a ausência de uma interface gráfica requintada.

Muita coisa mudou desde o meu primeiro computador. O teclado foi reduzido ao tamanho de uma caixa de fósforo, a internet discada foi substituída por uma camada onipresente e onisciente, e o status do MSN foi retirado – de maneira justa – porque ninguém mais está tão ocupado a ponto de não poder responder uma mensagem.

Todo esse saudosismo se fez presente nessa última semana quando precisei resetar a bateria do meu celular, pois a mesma, talvez numa alusão escrachada aos nuances da minha saúde mental, não estava se comportando como era esperado. Descobri que uma parte do processo de cura (digo reparo) era carregá-la duas vezes sem tocar no celular para resetar sua memória interna, e só a ideia de fazê-lo já me trouxe desconforto.

Meu trabalho, todas as minhas ferramentas, meus podcasts e músicas estão todos ali. Qual seria a melhor forma de enfrentar isso? Olhei ao meu redor e meu notebook, meu iPad e meu Kindle me encaravam com deboche. Quem diria que 5 horas de carregamento ininterrupto poderiam ser gatilhos tão fortes? A resposta talvez more na atenção, ou na fuga do que a atenção propriamente direcionada nos proporciona.

Assim como qualquer outro animal nós somos facilmente condicionados por circunstâncias externas, e depois de anos submetido a esse bombardeio de gatilhos intencionalmente programados, imagino que isso tenha se tornado parte da minha personalidade.

Eu decidi abraçar e escalar a situação, e ao invés de escrever um email que vinha desenhando na minha cabeça há tempos – plataforma esta que já é considerada por muitos um pouco estranho – eu escrevi uma carta física. E pasmem, com caneta e papel. Apesar de isso não ser tão incomum na minha vida, já não o fazia por um certo tempo.

Eu levei algo em torno de 1 hora para escrever a carta, um grande amigo me ajudou a traduzi-la (obrigado Michael), e mais duas horas para escrevê-la no papel. Veja, eu não estava passando frases para um papel, mas palavra por palavra, letra por letra. Isso requer uma atenção que poucas outras atividades requerem. Levei mais 1 hora para ir até o correio, me comunicar com as pessoas, entender como os selos funcionam por aqui, descobrir o recipiente necessário e a forma de pagamento. Onde eu clico para anexar uma foto?

O resultado de tudo isso foram dois tipos de pensamento contra argumentando um com o outro.

O primeiro tentava me convencer que eu havia gasto muito mais tempo do que o necessário, que as pessoas criaram a internet para agilizar nossas vidas de forma a liberar tempo para atividades que nos trazem prazer. Quanto mais eu explorava essa linha de pensamento, mais eu entendia que a maioria das coisas que eu faço no computador (é claro, com exceção das coisas que só posso fazer única e exclusivamente no computador), ou em qualquer outro aparato que visa agilizar um processo (por exemplo, o microondas), categorizam o processo em si como uma incumbência, algo que preciso me livrar o mais rápido possível. E isso nem sempre é verdade.

Por outro lado, ao lidar com algo que exige tempo, dedicação e paciência – sobretudo em uma nova língua, eu me vi prestando mais atenção, sentindo mais e estando mais presente no momento. Cada palavra parecia fazer mais sentido e era cuidadosamente escolhida, uma após a outra. Eu finalmente entendi uma famosa citação do essencialismo, “se eu tivesse mais tempo, teria escrito uma carta menor.” O assíncrono, no final das contas, é extremamente recompensador.

A carta ainda não chegou e talvez nunca chegue, mas não há uma certa beleza nisso?

Eu gosto de me comparar a uma pessoa tomando um banho de mar, bem lá no fundo, quando o assunto é presença (e exposição) online. De forma análoga, eu estou literalmente rodeado pelo pior e melhor dessa substância que me conecta à outras pessoas presentes no mesmo meio, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Contudo, para quem vê de longe, hora eu apareço, hora não. Longos períodos de esquecimento digital são quebrados por uma foto aqui e um texto ali.

Não repor meu carregador externo quebrado talvez tenha sido a minha maior mini-revolução tecnológica de 2020. Por mais que eu seja consciente sobre tudo o que acontece por trás dos famigerados algoritmos – que agora fazem mais do que simplesmente ditar as ações de robôs em 16 bits, a conexão onipresente sem dúvida tem afetado a minha atenção de uma maneira que não havia notado.

O plano de ataque? Sair do mar mais frequentemente e ver o que encontro na areia.

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