A criatividade é ineficiente

Não consigo me lembrar da quantidade de ferramentas que já usei para medir a forma com que gasto meu tempo. Seja aprendendo algo novo ou aplicando a teoria na prática, virou hábito tentar entender para onde vai o tempo que passo acordado.

Toggl Time Tracker
Toggl Time Tracker

Algumas coisas foram feitas para serem medidas e eu gosto da natureza dessas coisas. Tempo de leitura, duração de um episódio de podcast, tamanho de uma foto, km/l de um carro e por aí vai. Naturalmente, há outras coisas que não possuem uma unidade de medida inerente, e isso me causa um certo desconforto.

Desde que me entendo por gente eu correlaciono sucesso à métricas. No colégio, o número 7 me levava para o próximo nível. Na universidade, o número 5. Esse treinamento intensivo de ˜20 anos me tornou obcecado por números e pelo valor diretamente proporcional que eles traziam para minha vida.

Como já disse, no colégio a média era 7, mas 8.5 na primeira prova me tornou parte do clube de física. Na universidade, o fato de não ter falhado em nenhuma matéria me proporcionou um intercâmbio que deve ter custado algo em torno de 200 mil reais.

Golden Gate, California (2013)
Golden Gate, California (2013)

Como já era de se esperar, eu cheguei no mercado de trabalho totalmente orientado à números e indicadores, algo que rapidamente me levou à posições de gerenciamento. A frase “O que não se mede, não se gerencia” perpetuada por Peter Drucker, era o mantra universal.

Ao largar o meu primeiro trabalho para ir morar na Alemanha (o que acabou não acontecendo), eu decidi me tornar o técnico outrora gerenciado por mim. Eu abri mão da gestão para provar, talvez somente para mim mesmo, que eu poderia ser mais eficiente e que pessoas não são apenas indicadores de performance. Naturalmente eu o fiz.

Por outro lado, eu pude notar que a falta de escalabilidade ao atuar sozinho me incomodava mais do que a desumanização inerente às métricas de performance, e essa foi uma das principais razões pelas quais eu voltei ao mundo corporativo. Eu podia produzir apenas por uma limitada quantidade de horas e, por mais eficiente que eu fosse, havia uma linha limite. Com um time abaixo de mim, incrivelmente eficiente ou não, o alcance e o consequente resultado eram significativamente maiores.

Santiago, Chile (2018)
Santiago, Chile (2018)

Passado algum tempo, eu aceitei a ideia de que minha personalidade não se encaixava muito bem com a personalidade esperada de um líder, sobretudo em projetos corporativos. Por mais que eu tente, e por mais que eu ganhe muito dinheiro por isso, é impossível para mim entrar de cabeça em algo que não se alinha com os meus valores. Eu entendo, o mundo não é um vilarejo perfeito, mas qual a beleza dessa jornada se não criarmos nós mesmos esse vilarejo? As contas ainda precisam ser pagas, mas talvez eu não precise trocar de telefone todo ano.

Desde então venho navegando entre trabalhos de diferentes naturezas e recentemente encontrei algo que chamo de sweet spot, algo que funciona para mim. Um trabalho que realmente acredito, que me permite escalar coisas que podem ser escaladas sem abrir mão do meu toque pessoal, sem atropelar a minha curva de aprendizado. O vilarejo talvez tenha se tornado um pouco mais visível no horizonte, mas ainda se mantém a uma distância considerável. E por mais que esse pareça o cenário perfeito, ainda há um elefante branco enorme que preciso aprender a lidar. Esse elefante se chama criatividade.

A criatividade é por definição ineficiente e aceitar isso é um desafio e tanto. Eu estava ouvindo um podcast recentemente e conheci a história da Niki Nakayama, uma chefe de cozinha japonesa. Ela tem um restaurante altamente conceituado em Los Angeles e participou da primeira temporada do Chef’s Table. Ela participa de todas as etapas do processo, desde comprar os ingredientes até preparar o prato e apresentá-lo. Como se isso não fosse suficiente, ela também mantém um registro de todos os seus clientes com seus respectivos gostos e desgostos.

Para mim, a abordagem da Niki é a definição da ineficiência, pois a possibilidade de escalar essa operação é praticamente nula. Contudo, as avaliações do restaurante não ficam abaixo de “essa foi a melhor refeição da minha vida” ou “a partir de agora, vou ter que comparar todas as refeições da minha vida com esta.”

Niki Nakayama (foto de Katrina Dickson)
Niki Nakayama (foto de Katrina Dickson)

A ideia inicial do Perspectivas Podcast, um dos meus projetos pessoais, era lançar a primeira temporada com 20 episódios, mas uma série de fatores externos me impediram de fazê-lo. Por algum tempo eu considerei isso um grande fracasso, por mais que esse projeto seja apenas um hobby e eu tenho cumprido com todas as minhas outras obrigações. Bloqueio criativo, preguiça, falta de tempo, o chame como quiser; o fato é que algo criativo não pode necessariamente ser criado e distribuído da forma que eu antecipei.

As coisas estão se ajeitando e eu devo lançar os próximos episódios em breve. Eles terão temas que me intrigam muito e eu não poderia estar mais animado em voltar falando sobre eles.

  • Independência financeira: como é viver sem precisar pensar em dinheiro
  • Ayahuasca: a medicina da floresta
  • Veganismo: muito mais que uma dieta
  • O culto ao corpo: quando vira obsessão?

Outra coisa que eu ainda não entendi muito bem é porquê as pessoas separaram 30 minutos de suas vidas para me ouvir 530 vezes desde dezembro. Fico aturdido e lisonjeado ao mesmo tempo.

Uma hipocrisia enorme acompanhar de perto as métricas do podcast depois de ter escrito exatamente sobre isso, eu sei, mas eu preciso entender de alguma forma se esse conteúdo tem gerado algum valor.

Alguns outros podcasts e newsletters que acompanho desligaram todas as métricas e encorajaram seus ouvintes/inscritos a interagirem mais. Eles tornaram o processo mais dinâmico e menos gráfico, mais humano e menos mensurável. Por meio deste, os encorajo a fazer o mesmo.

No final das contas, a criatividade pode até ser ineficiente, mas também é imensuravelmente gratificante. Eu aprecio a presença de vocês aqui.

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