Deliberação (i)limitada

Esses dias eu estava fazendo café e pude ver um gráfico exponencial marcado com borra dentro da cafeteira, acredita? Desde então eu decidi que não escreveria mais sobre a pandemia publicamente.

O estresse anda onipresente e, por mais que evitemos as notícias a todo custo, qualquer manchete acidental se torna um gatilho iminente. Já sabemos como isso funciona.

Quando abri essa página em branco, eu não sabia ao certo como expor o que tem passado dentro da minha cabeça. Como seguir alinhado com essa decisão e ainda desenvolver um texto conciso e honesto como tenho feito nas últimas 45 semanas? Tenho dois episódios incríveis do Perspectivas prontos, um deles sobre o hype dos mochilões no Peru aos olhos de um peruano, e outro com um casal de amigos mostrando três perspectivas diferentes sobre trabalho remoto, mas não me parecia adequado ao momento.

Tenho pensado muito sobre deliberação, nossa capacidade de refletir, ponderar e decidir. Os aficionados pelos jogos de mundo aberto (alô Cyberpunk 2077) que, assim como eu, esperam ansiosamente o próximo lançamento talvez possam nos explicar essa deliberação de forma mais genuína. Exatamente como nos jogos, a nossa deliberação não possui limites. Podemos engordar, emagrecer, ir pra Islândia, alugar um apartamento na praia, comer carne, ficar bêbado, comprar um carro, vender esse carro, assistir Netflix, etc. Eu posso, literalmente, sentar no quintal de casa e comer terra o dia inteiro(!), simplesmente porque a nossa espécie adquiriu deliberação alguns milhares de anos atrás e isso nos permite fazer coisas sem sentido — leia-se coisas que não servem necessariamente para nos alimentar ou nos manter livres de ameaças.

Essa liberdade absoluta gera preocupações, o que leva a concessões a fim de eliminar essas mesmas preocupações. Os caçadores-coletores de 15 mil anos atrás decidiram deixar suas vidas nômades em busca de confortos básicos em detrimento de sua liberdade de ir e vir quando bem entendiam. De forma análoga, hoje nos apegamos aos bens materiais, carreiras promissoras e relacionamentos, e com isso abrimos mão de uma vida mais intensa, esta com um número ridiculamente maior de possibilidades.

Tudo bem, uma série de gerações foram precisas para criar linhas de produção, automatizar processos, criar cadeias de suprimentos e otimizar esses processos para que eu fique em dúvida sobre o que pedir do meu sofá para ser entregue na porta da minha casa em menos de 30 minutos. Seria um absurdo negar que estas estruturas super complexas que criamos ao longo dos milhares de anos até aqui nos permitem vidas mais fáceis, e talvez você pense que essa comparação não é muito justa, mas o conceito é bem similar. Foram todas escolhas deliberadas que avaliaram as possibilidades e seguiram com uma decisão — é claro, levando em conta as circunstâncias ali presentes.

Essas escolhas são bem pensadas na maioria das vezes, e cada uma destas fecha uma árvore de outras possibilidades, ao passo que também acaba nos livrando da angústia da necessidade de escolha dentre uma infinidade de cenários. Barry Schwartz chama isso de Paradoxo da Escolha, eu chamo de requisito necessário para perseverar, sobretudo psicologicamente, no século 21.

A diferença entre essa evolução orgânica e contínua e o momento que vivemos agora é que antes abríamos mão de algo em detrimento de outra coisa de forma deliberada e num ritmo normal — pelo menos na grande maioria das vezes. Agora estamos sendo forçados, sem precedentes, a seguir uma série de novas diretrizes para evitar que o mundo colapse estruturalmente, economicamente e por último mas não menos importante, psicologicamente. É como se alguém tivesse pegado a nossa árvore de possibilidades, amassado e jogado fora, e nos tivesse dado no lugar uma árvore completamente nova para ser seguida, sem precedentes ou manual de instrução. Ah, em húngaro!

Uma parte enorme da nossa liberdade nos foi tirada por um surto natural que estava só esperando para dar as caras. Uma bomba relógio orgânica que teve como gatilho o nosso avanço – deliberado – mata adentro.

Tentando evitar entrar em ramificações políticas, farei uso das palavras de Thoreau:

“Com um pouco mais de vagar e deliberação na escolha de suas metas, provavelmente todos os homens se tornariam em essência estudiosos e observadores, pois decerto nossa natureza e nosso destino interessam a todos por igual.”

Mais do que nunca é hora de observar e registrar, buscar um escape criativo. Aliás, acredito que nunca produzi tão pouco em toda minha vida como tenho feito nessas últimas semanas, e talvez até te decepcionarei ao deixar claro que não passo nem perto dos mestres da produtividade que estamos vendo por aí — achei importante ressaltar. Pela primeira vez na história estamos passando por uma pandemia dessa dimensão ao mesmo tempo que temos acesso quase ilimitado a consumir e produzir informação. Seja esta escrita, pintada, desenhada ou até mesmo sentida.

Talvez eu esteja indo na contramão insinuando que este tempo seja usado não para produzir, para finalmente resgatar aquele projeto guardado na gaveta ou aprender uma nova habilidade, mas pura e simplesmente para registrar. Esse tipo de registro normalmente é abstrato, confuso, não linear e não requer motivação ou inteligência emocional, apenas parte da deliberação que ainda não nos foi tirada.

Em águas mais calmas e com o benefício do retrospecto, poderemos rever todos esses registros e avaliar como nós, os seres mais inteligentes do Planeta Terra, conseguimos lidar com tudo isso. Talvez não sairemos do outro lado falando alemão (que pena) ou formados em Ashtanga Vinyasa Yoga, mas repletos de histórias registradas das mais variadas formas. Desenhos, pinturas, vídeos e textos. Novos jardins, novas molduras e livros mais rabiscados.

Novamente, quando o mar der uma acalmada, essas histórias poderão servir de impulso para uma mudança mais radical a nível pessoal ou até mesmo global. Ou se tornarão simplesmente algo similar aos nossos álbuns de fotos antigas que folhearemos algumas vezes durante as nossas vidas.

Esses registros, no entanto, nos ajudarão a resgatar as emoções ali presentes e, com sorte, a não cometer os mesmos erros, pois estas agora estarão positivamente influenciadas pelas nossas experiências após termos passado por tudo isso como comunidade, como humanos, como seres deliberados.

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